CONTO

Doce Atração

domingo, setembro 14, 2014 Paralelo das Letras 1 Comments

A manhã estava ensolarada na cidade de São Paulo, o barulho dos carros, passando pela avenida próxima, entrava pela janela fechada do quarto. Uma enorme preguiça e cansaço circulavam pelo seu corpo fazendo com que ela sentisse vontade de ficar na cama o dia inteiro. Olhando no despertador ao lado da cama, descobre que já passa das dez horas da manhã. Se ficar mais um minuto na cama, estará irremediavelmente atrasada para o trabalho. Não que seja o trabalho dos sonhos que não pode perder, mas ela precisa dele para se sustentar. Jurou não voltar atrás ao sair da casa dos pais, e faria de tudo para honrar este juramento que fizera a si mesma. Levanta apressada, corre para o banheiro, liga o chuveiro, a água esta quente demais para um dia de verão, mas não tem como melhorar a temperatura. Tudo na casa precisa de reparos, inclusive o chuveiro. Toma uma ducha rápida e sai ainda nua do banheiro. Uma das vantagens de morar sozinha. Veste um típico uniforme de secretaria, composto de saia e camisa social. Prende os cabelos em um coque um pouco frouxo. E sai de casa, trancando a porta após si.

Seu velho “Palio 94” a espera na pequena garagem. Ela vai até a ele torcendo para que ele esteja de bom humor e dê partida, sem ficar engasgando a todo instante. Aparentemente suas preces foram ouvidas e o carro pega de primeira. Agora a torcida é pra tudo corra bem, e ela consiga fazer o trajeto  nos vinte minutos que faltam para a entrada no trabalho. Ela chega à empresa com cinco minutos de atraso e um pneu furado. O chefe dela não chegou ainda, e ela não terá que dar explicações sobre o atraso...

Meia hora depois um homem alto, com corpo atlético e olhar calmo entra pela porta do escritório de advocacia que ela trabalha. Ele esta acompanhado de um rapaz que tem quase a sua altura, cabelos num castanho cobre, e olhos infinitamente penetrantes. Ela cora a vista do jovem rapaz!

- Bom dia Tatiane! Este é meu sobrinho Marcus, ele vai trabalhar conosco, conforme eu tinha lhe falado na semana passada. Você pode, por favor, mostrar o escritório para ele?
- Com certeza Sr. Monjardim – Ela encontra os olhos do rapaz, que esta sorrindo – Sr. Marcus, queira me acompanhar, por favor.
- Apenas Marcus, por favor – Ele tenta imitar a entonação de voz dela – Seremos colegas de trabalho.

Ela meneia a cabeça, e olha para o rapaz. Não consegue evitar o pensamento que será uma tortura ser colega de trabalho dele. Ele deve ser mais novo que ela, pelo menos dois anos. Ainda tem o jeito afetado dos universitários, o que faz interpretar que ele ou acabou de concluir o curso, ou esta no ultimo ano. Mas a tortura não estará em lidar com alguém quase da sua vida, isso pode ser até muito bom. Ela consiste no fato de que por alguma razão assim que o viu a garota se sentiu estranhamente atraída por ele. E que isso é ruim, por ele ser sobrinho do seu chefe e sócio majoritário do escritório. Isso não tem como dar certo! Ele é a combinação de tudo que pode fazer uma garota perder a cabeça, e no caso dela poderia perder o emprego também. É bonito demais, simpático demais, transpira confiança, um papo muito bom, além de um suave sotaque sulista que agrada a ela, e faz sua imaginação voar.

Os dias passaram e toda vez que Marcus entrava pela porta da frente, e desejava um bom dia, antes de fazer uma piadinha. O coração dela queria saltar do peito, as mãos suavam, e ela se sentia incrivelmente excitada. Alias isso ocorria até quando simplesmente ela pensava nele. Naquele terno preto, perfeitamente alinhado ao seu corpo. E o sorriso que coroava tudo o conjunto extremamente sex. Ela não sabia dizer se ele notava tudo que causava nela, mas algo ele devia querer com aquelas brincadeiras e cantadas sutis que dava sempre que se encontravam.


Dois meses completos que ele trabalhava no escritório e continuavam apenas flertando sutilmente. Ela começava a pensar que talvez projetasse seus desejos nas palavras dele. Talvez naquela exata tarde ele estivesse planejando um fim de semana romântico com sua namorada ninfeta. De repente ela notou que não sabia se ele tinha namorada. Mas já estava com ciúmes dele? Como assim? Melhor acabar com isso, ela tinha que esquecer esta loucura.

Era sexta feira, fim de expediente, as outras secretarias tinham a convidado para um happy hour. Ela achou que seria então uma ótima oportunidade para se divertir e sair desta maluquice de atração por Marcus. Quando ela chegou ao saguão do edifício do escritório, as outras três secretarias dos diretores já estavam aguardando por ela.
- Tati, hoje nós vamos ter uma noite de advogadas de alto padrão. Vamos ao Makanawi!
- Vocês estão loucas? Todos nossos chefes fazem o pós-trabalho lá! Acho melhor ir um barzinho na Vila Madalena
- Deixa de ser medrosa, podemos ir lá sim. Eles pagam e nós também. O dinheiro deles não é melhor que o nosso.
- Lucia, você fala isso por causa do seu lance com o Natan. Eu e a Estela não temos um caso com o chefe. Não queremos vigiar ninguém.
-Mas vai ir sim, o Makanawi é um ótimo lugar. E talvez vocês arrumem um namorado rico por lá.
- Ok! Mas não vamos ficar mais que uma hora. Tenho que acordar cedo, minha casa tá uma bagunça.

O Makanawi era um bar boate transado, frequentado por endinheirados e puxa sacos. Era onde também os advogados do escritório que Tatiane trabalhava iam tomar uísque e discutir casos anteriores e atuais. Sempre que ia lá com as amigas ela ficava muito sem jeito em saber que os patrões estavam logo na mesa ao lado. Talvez até ouvindo a conversa dela com as amigas, o que era desconfortável, visto que nunca se sabe quando alguém vai usar algo contra você.

Elas chegaram ao local e foram pedir seus mochitos cubanos. O lugar estava já animado, alguns rapazes jogavam sinuca mais ao fundo, claramente eram estagiários. Elas escolheram uma mesa no meio do salão. E ficaram jogando conversa fora, fofocando sobre o escritório. Um dos estagiários acenou para Lucia, que fez um comentário maldoso sobre ele, enquanto retribuía o aceno. Aparentemente, ele achou que era um convite a se aproximar.
- Olá garotas! Desculpe-me se estiver errado, mas vocês são advogadas no Monjardim e associados não são?

Tatiane ia corrigir, mas Lucia tomou a frente:

-Sim, somos associadas lá. Porque o interesse?
- Put’s eu falei aos meus amigos. Que me recordava de vocês. Uma vez fui a uma entrevista lá. E tinha certeza que tinha as visto lá.
- Viu só estava certo. Bom né? – Estela entrou na brincadeira.
- Vocês estão sozinhas? Porque é a primeira vez que estamos aqui. Adoraríamos companhia.
- Vocês são de qual escritório?
-Teixeira Villar!
- Ok! Não é concorrente nosso. Vamos deixar nos pagarem uma bebida.
- Vou buscar meus amigos. Um minuto!  - O garoto saiu rápido
- Lu, eles são garotos apenas, não notou?
- Tati, e você não notou que as bebidas aqui são bem caras? Deixe que eles paguem a próxima rodada.
- E se o Natan vê você com eles?
-Esqueceu que ele tem uma esposa. É com ela que ele deve se preocupar.

O garoto voltou com dois amigos. E antes mesmo de sentarem já se ofereceram para pagar a próxima rodada de bebidas. Embora apesar da pouca idade, eles tivessem um papo legal, tudo neles lembrava a ela Marcus. Como ele era mais maduro que eles, como as brincadeiras dele, eram mais engraçadas. Logo a mente dela estava voando e longe do Makanawi e da conversa com estagiários um tanto pedantes. Estava tão distraída que demorou pra ouvir que estava sendo chamada por alguém.

= Tatiane... Tatiane... Tatiane?
- Oi... Oi – Ela voltou o pensamento ao bar, e olhou pra quem falava com ela. Imaginou que fosse um dos rapazes ou até as amigas, mais foi surpreendida com o rosto da pessoa que dominava seus pensamentos. – Marcus
- Não sabia que você frequenta o Makanawi!
- Não, não frequento sempre. Só vim para um Happy hour com as meninas.
- Entendo. Vi-te de longe, pensei que pudéssemos conversar, mas vocês estão acompanhadas. Falamos outra hora.
- Não, tudo bem, podemos conversar. Os garotos são amigos da Lucia – Ela olhou para a amiga – Você está com quem?
- Com meu tio e o Natan, mas não aguento mais aquele papo de advogados.
- Você é um advogado Marcus.
-Vamos ao bar falar mais sobre mim... Ou melhor, sobre você?
- Vamos, mas ficamos com a opção falar sobre você.

Eles foram se sentar no bar, e ficaram ali conversando sobre eles. Ela descobriu que ele era solteiro, e muito entediado com as garotas que se aproximavam dele por causa de dinheiro e bons carros. Ele achou fascinante a vida classe média dela. Até propôs trocarem de vidas por algumas semanas. Logo estavam falando sobre como é ser solteiro, e então dos interesses mútuos. Quando ele foi leva-la em casa, ela tinha certeza que estava apaixonada por ele. E que ele estava interessado nela.

Duas semanas passaram, e eles se encontravam todos os dias depois do expediente para conversarem. Mas até o momento só tinham trocado beijos e carinhos. Apesar de constantemente ela estar se imaginando em momentos íntimos com ele. Mesmo ela ainda tendo medo de se entregar e se machucar por isso, não podia negar que havia uma enorme tensão sexual entre eles. Então decidiu se entregar completamente a ele.

Era quarta feira, faltando apenas alguns dias para o natal. Eles saíram do trabalho juntos, foram a um restaurante próximo. Dividiram um excelente vinho italiano. E após foram para o apartamento dele, que sem qualquer exagero era a maior perfeição que o dinheiro pode comprar. Lindamente decorado, com uma pequena cascata onde normalmente ficaria a lareira. Tudo era tão limpo, lindo e convidativo, que ela se sentiu completamente a vontade ali. Ele abriu uma garrafa de espumante e serviu duas taças. Era tão gostoso que ele sentiu um forte impulso de beber em um só gole, mas quis ser educada. Quando ela tirou a borda da taça dos lábios ele a arrebatou pela cintura e lhe beijou como nunca antes. E ela se deixou envolver pelos seus braços e beijo. Estavam tão próximos que ela pode sentir que ele estava pronto para o que viria a seguir. E ela também!


Três meses juntos, ele a pede em casamento! Ela aceitou sem pensar, adorava estar com ele, amava ele. Mas depois de passada a emoção começou a pensar se não havia sido precipitado. Não sabia ao certo se a sorte tinha sorrido para ela trazendo um cara bonito, rico e amoroso para sua vida, ou se isso se tornaria um tormento para ela, quando a família dele tomasse conhecimento deste casamento. Mas ele dizia que todos estavam felizes com  a noticia. E que logo fariam um almoço de noivado.

Para ela tudo que realmente importava era estar perto dele, não importando se seria como namorada ou esposa. Então decidiu viver um dia de cada vez. Como todos dizem: Carpem Die!

Um comentário:

  1. Muito boa, porém acho que poderias ter prolongado só mais um pouco no penúltimo parágrafo. Acho que ficou meio que, quebrado.
    ;)
    Só entendo de ler mesmo.

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